Ano Novo, Vida Nova

8 de janeiro de 2019

A época da virada do ano é tida como um momento de renovação. O senso comum dita que no ano novo tudo pode mudar e se renovar. Diante dessa percepção, conversamos com o psicólogo da Clínica Med Center Norte, Jefferson Felipe Lucchesi, que explica um pouco sobre o comportamento humano em relação às expectativas e mudanças no ano que começa. Jefferson tem 30 Anos, é formado na Universidade Paulista de Sorocaba e atua na profissão há oito anos.

Ano Novo, Vida Nova

Zona Norte Notícias – De onde vem essa cultura de ano novo-vida nova, de promessas e planos para um novo ano?

Jefferson Felipe Lucchesi – Acredita-se que a comemoração ocidental do ano novo teve origem através de um decreto do então governador romano, Julio César, que fixou o dia 1º de Janeiro como o Dia do Ano-Novo, isso há muito tempo atrás, mais precisamente no ano 46 a.C (antes de Cristo). Os romanos dedicaram esse dia a Jano, o Deus dos Portões, que tinha duas faces (bifronte) sendo uma voltada para frente (visualizando o futuro) e a outra para trás (visualizando o passado), e “batizaram” o primeiro mês do ano de Janeiro, derivado do nome de Jano. E foi a partir destes indícios históricos que se construíram as ideias de “ano novo, vida nova”, tornando este um momento de reflexão e avaliação onde “olhamos para o passado para assim definirmos o futuro”.

ZNN – Por que as pessoas acreditam que na virada do ano as coisas se renovam?

JFL – Porque por se tratar de um momento de avaliação e reflexão do que passou, costumamos assumir onde erramos e a partir disso definimos as possíveis soluções, sendo esta reflexão, o “start” para as promessas de uma vida mais saudável, um controle financeiro mais eficiente, mais tempo com a família, entre outras.  O momento também é favorável e todos a nossa volta, em sua maioria, estão envolvidos pelo sentimento de que o ano novo nos trará novas oportunidades, reacendendo em nós a esperança de que a vida não será a mesma de ontem / ano passado.

ZNN – O otimismo em relação a essa época é uma coisa saudável?

JFL – Sim, pois as pessoas estão envolvidas pelo sentimento de novidade e vigor, fazendo-as crer que as cosias serão diferentes e que desta vez terão forças o suficiente para enfrentar todos os obstáculos que vierem pela frente. Porém devemos sempre ter a consciência de que a vida nem sempre sai da forma como planejamos e que esses momentos de frustração são necessários para a nossa evolução e aprendizado.

ZNN – Muitas pessoas acreditam que se fizerem promessas alcançarão o objetivo desejado. É correto atribuir à sorte caso o desejo venha a se realizar?

JFL – A sorte faz seu papel sim, porém a mesma não é a única protagonista para a realização destes desejos. Devemos compreender também que temos a nossa parcela de responsabilidade através dos nossos pensamentos e nossas atitudes, que na maioria das vezes são decisivos para essas conquistas.

ZNN – As crenças místicas em relação à roupa ou costumes nessa época são uma forma de acreditar na realização de um objetivo. Como é explicado esse comportamento?

JFL – Tudo é relativo, uma vez que as crenças são particulares de cada indivíduo, sendo estas distintas de pessoa para pessoa, porém os desejos e votos para o novo ano são quase sempre os mesmos, como: paz, saúde, dinheiro, amor. Dessa forma podemos entender que, quando nos apegamos às superstições, estamos tentando criar “realidades” que serão recompensadas de formas místicas, justificadas por várias tradições familiares.

ZNN – As expectativas dessa época nem sempre são reais, como a pessoa pode lidar com a frustação?

JFL – Uma ótima forma de lidar com suas frustrações é se permitindo vivê-las e compreendê-las, não apenas de forma superficial, mas também interiormente. Podemos nos perguntar: estou frustrado com o que? Porque? O que me deixou assim? Foi algo que fiz ou que fizeram para mim? Dependia de mim ou do outro? Dentre outras perguntas e suas respectivas respostas, entender o que aconteceu naquela situação e então de outras formas permitir-se viver a mesma situação. Neste processo, um psicólogo pode ser de grande apoio, ainda entendendo que, em casos mais complexos, a própria frustração e a não “elaboração” da mesma, pode nos levar a outras questões que precisam de uma atenção médica e, em algumas vezes, de intervenções medicamentosas.

ZNN – As pessoas consideram essa uma época de perdão e reconciliação. Muitos acreditam que também as pessoas com quem se relacionam possam mudar definitivamente. Isso é possível?

JFL – Não, pois o outro só muda se ele de fato quiser. Temos o costume de transferir para o outro as nossas expectativas, porém temos que entender que as atitudes do outro são de inteira responsabilidade dele, cabendo a nós saber lidar com elas e, através disso, fazer nossas próprias escolhas, sem responsabilizar ninguém por isso.

Também devemos nos lembrar que não é porque é ano novo que as coisas e pessoas mudarão do nada, principalmente porque elas tem que desejar esta mudança e se dedicar a ela, assim deixo mencionado o paradoxo “As pessoas desejam ardentemente mudar sua vida, mas dificilmente se propõem a se auto-modificar”.

ZNN – A decepção quanto a não ocorrer a esperada mudança nessas pessoas pode ser um fator grave nos relacionamentos?

JFL – Sim, devido a muitas vezes não conseguirmos nos ver como o “problema” e sempre colocar a responsabilidade das nossas escolhas no outro. Eu decido ficar com a pessoa por isto ou por aquilo, agora ficar com ela para mudá-la é impossível, pois a outra pessoa tem que querer essa mudança, sendo o nosso papel apenas ajudá-la nesse processo de evolução.

ZNN – Como as pessoas podem apreciar esse momento sem criar mágoas ou frustrações quando a vida cotidiana voltar ao normal?

JFL – Acredito que devam se conscientizar de que devem sim ter suas expectativas, porém com responsabilidade pelas mesmas. Não basta fazer “N” planos neste ano e mudar os comportamentos, sem primeiramente mudar a forma como vemos e pensamos as coisas.

Uma forma fácil de poder apreciar este momento é realmente conviver e partilhar dele e dar-se a oportunidade de ver as coisas de forma diferente. Acredito que seja uma boa data para reatar laços, porem devemos fazer isto de forma consciente, entendendo que o outro não mudará apenas porque nós desejamos isso.

ZNN – Como as pessoas podem trabalhar para que essas expectativas em relação às mudanças para o próximo ano durem mais tempo e possam ser transformadas num objetivo real pra realização dos sonhos?

JFL – Realizando uma promessa de cada vez, dividindo-a em pequenas atitudes para não perder o foco, assim facilitando estas conquistas. Porém devemos nos manter atentos à nossa forma de pensar que também deve mudar em conjunto com as nossas ações, pois não adianta querer perder alguns quilinhos se continua acreditando que “bacon é vida”.