Projeto Cidade Responsável

9 de setembro de 2019

O Papo Com desse mês traz Tarsila Portella, coordenadora do projeto Cidade Responsável, lançado em Sorocaba no mês de agosto, com iniciativa da Associação Brasileira da Indústria Cervejeira (CervBrasil) e em parceria com a Secretaria de Políticas Sobre Drogas (SEPOD). O projeto tem como finalidade produzir ações de prevenção do consumo de álcool para menores de 18 anos em Sorocaba e região e que englobam as áreas de compra e consumo, comunidade, comunicação, educação, saúde entre outras e incentivo à fiscalização e acompanhamento de ocorrências envolvendo o consumo abusivo de bebidas alcoólicas.

Projeto Cidade Responsável

Zona Norte Notícias – Como surgiu o projeto Cidade Responsável?

Tarsila Portella – O Projeto Cidade Responsável é uma iniciativa da CervBrasil (Associação Brasileira da Indústria da Cerveja), cuja área de Responsabilidade Coorporativa desenvolve projetos com o objetivo de inibir o consumo nocivo de álcool. Dentro da categoria de “consumo nocivo” estão alguns padrões de consumo como “o beber e dirigir”, o “beber em excesso” e o consumo por menores de 18 anos. Neste sentido, para promover a inibição do consumo precoce de álcool foi elaborado o Projeto Cidade Responsável, como ação incentivadora de práticas preventivas por parte de diversos atores da sociedade, como as escolas, as famílias, a rede de saúde, da assistência social, além dos próprios jovens.

ZNN – Como foi pensada a implantação desse projeto no interior?

TP – O Projeto Cidade Responsável tem uma estrutura de ações prévia, que é sempre adaptada a cada contexto de implantação. Esta é a quinta edição do projeto, que já foi desenvolvido nos municípios de Fernandópolis, São Bernardo do Campo e Americana. A quarta edição do Projeto foi realizada em 6 Diretorias de Ensino do Estado de SP, numa parceria com a Secretaria da Educação. Como parte da primeira fase do Projeto, estão os processos de articulação de atores e lideranças estratégicas e, também, a fase de diagnóstico e mapeamento do contexto local. Dessa maneira, todas as ações do Projeto serão construídas a partir deste levantamento feito e em conjunto com instituições e representantes de diversos setores, como algumas secretarias municipais, a diretoria estadual de ensino, a sociedade civil, entidades privadas, entre outros. É importante enfatizar que estes mesmos atores também farão o acompanhamento de todo o processo de implementação e avaliação do Projeto.

ZNN – Que ações de prevenção o projeto traz entre os jovens?

TP – Para alcançar o público de jovens menores de 18 anos e, para atingir o objetivo de inibir o consumo de álcool por menores de idade, o Projeto Cidade Responsável foi previamente estruturado em duas frentes de ação: conscientização e fiscalização. As ações foram divididas em seis pilares de atuação: Educação; Saúde; Compra e Consumo; Comunidade, Parcerias e Comunicação. Para cada pilar foram previstas capacitações e ações específicas, de acordo com o público e objetivos estratégicos.

No pilar de Educação estão contemplados educadores, estudantes e o corpo diretivo do Ensino Médio e Ensino Fundamental II, com o objetivo de fomentar a produção dos próprios jovens sobre o tema da prevenção, além de contribuir com a instrumentalização dos educadores sobre o tema, em abordagens adequadas ao público em questão.

Em Saúde, a intenção é capacitar os profissionais para a ampliação de estratégias de prevenção, para a identificação do consumo de bebidas alcóolicas por menores de idade e orientação adequada de casos identificados, assim como a sensibilização e orientação das famílias atendidas pela Estratégia Saúde da Família.

No pilar de Compra e Consumo foram previstos treinamentos de agentes das entidades responsáveis pelo trabalho de fiscalização, como a Vigilância Sanitária, Polícia Militar, Guarda Civil e de caixas, garçons e funcionários dos estabelecimentos e eventos onde há venda e consumo de bebidas alcoólicas. O objetivo específico da ação é auxiliar os profissionais no cumprimento da lei, adequando abordagens e ampliando estratégias para a comunicação com o cliente e a população.

O pilar Comunidade reúne representantes da Secretaria de Assistência Social, Secretaria de Cultura, Secretaria de Esporte, conselhos, organizações da sociedade civil entre outros. Os objetivos específicos deste pilarsão: formar multiplicadores para prevenção do consumo de bebidas alcoólicas; mobilizar e informar as famílias sobre os efeitos do consumo precoce de bebidas alcoólicas; contribuir com discussões e ações de defesa dos direitos da criança e do adolescente; ampliar, otimizar e potencializar a oferta de oportunidades de lazer, esporte, cultura e convivência e fortalecer lideranças comunitárias.

O pilar Parcerias tem como objetivo aumentar a capilaridade do projeto, potencializar as ações previstas e envolver organizações do entorno a fim de construir a sustentabilidade do projeto para os anos seguintes. Além disso, este eixo do projeto se propõe a estabelecer parcerias no intuito de qualificar o jovem para o mercado de trabalho, como foco em inovação e empreendedorismo.

Finalmente, o pilar Comunicação tem como foco divulgar as ações do projeto, ampliar o alcance dessas ações e envolver a mídia local no trabalho de sensibilização e engajamento de toda sociedade.

ZNN – Qual o índice de consumo de álcool em Sorocaba e no interior? Esse índice é comparável aos índices estaduais ou de todo o país?

TP – O Projeto ainda se encontra na fase de estabelecimento de parcerias e início do mapeamento e diagnóstico. Existem pesquisas feitas nacionalmente e no Estado de São Paulo e sabemos de levantamentos feito no município sobre este tema. No entanto, essas informações ainda estão sendo compiladas e analisadas pela equipe gestora.

Como parte da fase de diagnóstico e mapeamento, o Projeto Cidade Responsável prevê a realização de uma pesquisa com adolescentes menores de 18 anos, antes e após o desenvolvimento das ações, no intuito de fornecer dados concretos para o planejamento das ações e, também, avaliar o impacto e efetividade do que foi realizado.

ZNN – Como está o consumo entre os jovens?

TP – De acordo com a publicação Panorama Álcool Brasil, lançado este ano pelo CISA (Centro de Informação sobre Saúde e Álcool), no Brasil 26,8% dos jovens com idades entre 15 e 19 anos afirmaram terem consumido álcool no último ano, semelhante ao índice mundial de 26,5% (OMS, 2018a). Outro dado apresentado pela publicação faz referência à última edição da Pesquisa nacional de Saúde do Escolar (PenSE), de 2015, que mostrou que a idade média do primeiro episódio de consumo de álcool é de 12,5 anos (MALTA et al., 2018). Outras pesquisas nacionais citadas pela publicação ainda apontam que 32% dos estudantes brasileiros com idades entre 14 e 18 anos relataram o BPE (beber pesado episódico) no último ano (SANCHEZet al., 2013) e 8,9% dos estudantes entre 10 e 18 anos relataram consumo pesado no último mês (GALDURÓZ et al., 2010).  O documento também destaca outro estudo realizado com estudantes do 7º e 8º anos de escolas públicas brasileiras, que mostrou que 16,5% dos estudantes relataram pelo menos um episódio de BPE no último ano e 2,2% relataram consumo frequente/pesado no último mês. De maneira geral, esses dados são bastante preocupantespois há claras evidências de que quanto mais precoce o consumo de álcool, maior a probabilidade de uso problemático futuro. Tendo em vista tal cenário, se mostra fundamental e urgente o desenvolvimento de políticas públicas voltadas para a redução da incidência do uso de álcool entre adolescentes. E para este fim e para este público, a prevenção é particularmente indicada.

ZNN – Como a sociedade pode ajudar para que os jovens menores de idade evitem o consumo de álcool?

TP  – Toda a sociedade pode contribuir para inibir o consumo precoce de álcool. Os pais, mães e responsáveis devem conversar e orientar seus filhos sobre o assunto, além de cuidarem da relação que eles próprios estabelecem com a bebida. As escolas podem ampliar o trabalho que já realizam, relacionando este tema a diversas disciplinas do conhecimento e incentivando que os próprios jovens elaborem mensagens preventivas; podem também estabelecer parcerias para lidar com este assunto, como com a rede de Saúde, por exemplo. Os estabelecimentos comerciais que vendem bebidas alcoólicas devem orientar seus funcionários ao cumprimento da lei e não vender, em hipótese alguma, álcool para menores de 18 anos. As forças de fiscalização, como a Vigilância Sanitária, a Polícia Militar e a Guarda Civil devem estar atentas a este fator, realizando ações de conscientização e fiscalização, a fim de que a legislação seja cumprida. O poder público também tem o dever de zelar sobre este tema, nas suas diversas esferas de atuação, com o intuito de fortalecer e criar políticas públicas eficientes. A sociedade como um todo deve estar atenta, denunciar irregularidades e buscar soluções junto com o poder público, a fim de enfrentar esse desafio.

 ZNN  – Quais os perigos que um jovem tem com o consumo exagerado de bebidas alcoólicas?

TP – Ainda de acordo com a publicação Panorama Álcool Brasil, lançado este ano pelo CISA (Centro de Informação sobre Saúde e Álcool), um estudo nacional avaliou os fatores associados ao binge drinking (beber em excesso), e verificou que entre eles estão o tabagismo, uso de maconha, uso de drogas inalantes, prática de bullying, agressão verbal e notas escolares intermediárias/baixas. Os fatores associados ao consumo frequente/pesado foram tabagismo, uso de maconha e agressão física (CONEGUNDES et al., 2018). Em conjunto, esses dados revelam que o consumo de álcool entre adolescentes brasileiros é um importante fator de risco para acidentes, violência e doenças crônicas não-transmissíveis (MALTA et al., 2014; 2018). Neste sentido, prevenir o consumo precoce de álcool é também prevenir a violência, acidentes, o consumo de drogas lícitas e ilícitas, o baixo desempenho e a evasão escolar, além de uma série de doenças como a própria dependência de álcool.  O consumo de álcool feito por jovens é perigoso por uma série de fatores, entre eles, a dificuldade de moderação e controle, a sensibilidade elevada ao álcool em comparação com o adulto e, principalmente, pois o cérebro do adolescente está em formação e o consumo de álcool nesta fase pode prejudicara memória e atenção, e consequentemente, a aprendizagem, além de trazer alterações de comportamento e outros tantos fatores.

ZNN – Como identificar um jovem que apresenta comportamento de dependência do álcool?

TP – É muito difícil encontrar dependência de álcool em adolescentes e jovens, pois o alcoolismo é uma doença que demora, em média, 10 anos para se instalar. Um adolescente que inicia de maneira precoce o consumo de álcool tem aumentada de forma significativa a probabilidade de desenvolver dependência de álcool na fase adulta.  De maneira geral, um adolescente que faz uso precoce de álcool pode apresentar oscilações bruscas de comportamento, queda do rendimento escolar, faltas e atrasos em compromissos, envolvimento em brigas e acidentes, mal-estar físico, entre outros fatores. No entanto, tem muitos adolescentes que fogem do estereótipo e não demonstram sinais claros de consumo de álcool. Mesmo estando atentos ao comportamento dos filhos, muitas vezes, os pais, mães e responsáveis não percebem que o filho está fazendo uso precoce de álcool e quando se dão conta é em razão de algum incidente decorrente deste consumo, como o fato do filho(a) chegar em casa alcoolizado, se envolver em brigas etc. É muito importante que se converse sobre este tema em casa, o que sabemos que não é comum. Em geral, este assunto não é pauta das conversas familiares. No Projeto Cidade Responsável, nós incentivamos que esse diálogo aconteça também em casa, pois o conhecimento e informação são fatores preventivos ao consumo precoce de álcool. Os jovens precisam receber informações e entender as razões do porquê não se deve consumir álcool antes dos 18 anos e porque, após os 18, o consumo deve ser feito de maneira moderada e responsável.

ZNN – Como o projeto apresenta esse quadro para os jovens?

TP – Para alcançar o público de jovens menores de 18 anos e, para atingir o objetivo de inibir o consumo de álcool por menores de idade, o Projeto Cidade Responsável propõe o trabalho com uma série de interlocutores estratégicos.  As principais ações do Projeto preveem o trabalho direto com educadores, pais, mães e responsáveis, entre outros. As capacitações e ações planejadas são no intuito de incentivar o que conhecemos como “educação entre pares”, ou seja, nós queremos que os jovens conversem sobre isso entre eles, que eles próprios sejam autores de mensagens e ações preventivas.  

ZNN – Qual a importância desse projeto para os jovens de Sorocaba?

TP – Estamos bastante otimistas com o início do Projeto Cidade Responsável em Sorocaba. O envolvimento de toda a sociedade, as diversas esferas do poder público e da iniciativa privada está intimamente ligada ao desempenho do Projeto. Quanto mais parceiros e pessoas engajadas, maior a chance de obtermos sucesso e não apenas reduzir o consumo precoce de álcool na cidade, mas também de ampliar a oferta de cultura, lazer e esporte para o jovem, qualificá-los para o mercado de trabalho, aumentar o acesso a vagas de trabalho, entre outras metas. A juventude e, consequentemente, toda a sociedade de Sorocaba só tem a ganhar.